Monday, September 24, 2007

"Mais uma noite...
Uma noite incrivelmente escura... Tão escura que a própria lua e estrelas desapareceram em busca de alguma luz.
Uma noite silenciosamente perturbadora…
Enquanto os meus olhos não se habituam á escuridão, fico nas trevas mais profundas.
Abro a tampa de uma das minhas caixas de meditação e retiro o disco mágico.
Uso a musica para moldar o silêncio que me perturba.
O negro da noite mostra-se o cenário ideal para o som gótico que é cuspido das colunas.
Uma espécie de luto externo que uso para uma introspecção interna.
Reparo no fumo do issenço a ganhar forma nos escassos pedaços de luz que atravessam a janela. Formas abstractas que forço a parecer algo.
Sento-me inquietantemente quieto enquanto esvazio a mente...
Por minutos, no meio da solidão e das trevas, sinto-me completamente em paz! Uma paz que me permite a lucidez necessária para sonhar com velhas memórias e memorizar novos sonhos.
O som começa a desaparecer e o silêncio ganha novamente forma.
Sinto o meu corpo voltar a si.
É altura de findar mais um dia.
Fecho os olhos e adormeço."



"O vaso dá uma forma ao vazio e a música ao silêncio."
Georges Braque

Texto publicado no Blog Cultura, Arte & Literatura
http://literaturaemanalise.blogspot.com/

Tuesday, September 18, 2007

"Canto" das Memórias

É impressionante como a música tem o dom de alterar o nosso estado de espírito.
Depois de receber uma notícia terrível e de passar algumas horas angustiantes meti-me no carro e preparei-me para uma longa viagem em direcção á realidade.
Peguei num velho álbum de Iron Maiden para me fazer companhia e meti-me a caminho.
Enquanto a música tocava, senti um esboço de sorriso a formar-se nos meus lábios.
Já nem me lembrava deste movimento tão instintivo, tão natural, que transmite um sentimento positivo. Os últimos acontecimentos não me deixaram muito espaço para este tipo de pensamentos. Mas a música tem destas surpresas!

O primeiro álbum de Metal que comprei, largos anos atrás, foi “No Prayer For The Dying” dos Iron Maiden.
Foi a primeira vez que senti, verdadeiramente, o poder do Metal.
Na altura os Nirvana eram o centro do meu universo musical. Tinha curiosidade em tudo o que aparecia relacionado com os Nirvana. Foi assim que comecei a ouvir grandes bandas como Pixies, Melvins ou Sonic Youth, mas ansiava por conhecer outro tipo de sons.

Havia na minha escola uma esquina, designada “O Canto” onde estavam habitualmente os chamados “Gajos Fixes”, os alunos mais populares.
Eu e um grande amigo meu costumávamos passear por esse canto restrito, na esperança de nos infiltrarmos no grupo, mas eramos muito putos na altura (alguns anos depois tive o orgulho de ter feito parte desse "canto" mas nessa altura era mais que um grupo, era uma família... apelidada de Família Prazeres E Morais!)
Numa dessas viagens reparei numa t-shirt que um dos ‘gajos fixes’ trazia. Uma carantonha medonha estampada e uma inscrição onde se lia Iron Maiden.
Nessa mesma semana estava numa loja de música com o meu pai e reparei numa cassete em exposição na montra.
Peguei na cassete e olhei atentamente. No topo lia-se “Iron Maiden” e a capa tinha um cadáver a sair do túmulo. Lindo!
O álbum era o “No Prayer For The Dying”!
Depois de uma dura batalha com o meu pai, lá consegui o financiamento necessário para poder adquirir este som. Corri para casa e ouvi a cassete de uma ponta á outra.
No final, ainda incrédulo com o que tinha ouvido, só me restou carregar no play outra vez… e outra… e outra!

Decorria o ano de 1992. Tantos anos depois, este álbum ainda me faz carregar no play da minha aparelhagem vezes sem conta.
Um pouco perdido na vasta discografia desta magnífica banda, penso que nunca se fez a devida justiça a este seminal álbum. Perdoem-me os fãs mas, para mim, é indiscutivelmente o seu melhor trabalho.
Talvez seja a nostalgia a falar, mas é uma opinião sincera.

E hoje, sentado na sala de espera de um Hospital, este álbum faz-me novamente sonhar.
Enquanto escrevo estas linhas e recordo velhos tempos, os problemas desaparecem por minutos, e ganho um novo fôlego para a longa espera que ainda tenho pela frente.

Friday, September 14, 2007

Given To The Rising



"Existem bandas que são impossíveis de catalogar.
Bandas imprevisíveis, em constante mutação e evolução. Bandas que nos surpreendem em cada lançamento.
O primeiro contacto que tive com uma banda assim foi quando um álbum chamado ‘Through Silver In Blood’ entrou na minha aparelhagem.
Comprei o álbum em segunda mão porque fiquei bastante curioso depois de ler um artigo sobre uma banda chamada Neurosis.
Quando o ouvi detestei. A música simplesmente não fazia sentido.

Alguns anos depois tive a sorte de comprar um número da Metal Hammer que trazia um cd com várias bandas. Cheguei a casa e, enquanto devorava a revista, os primeiros acordes do ‘The Doorway’ invadiaram os meus ouvidos! Peguei na caixa e procurei o nome da banda que tinha escrito esta canção genial – NEUROSIS!
Nunca tinha ouvido um som assim! Completamente diferente. Um som… monstruoso. Verdadeiramente ‘pesado’!

A partir daquele dia a minha opinião sobre esta banda mudou radicalmente.
O álbum ‘Times Of Grace’ é um dos meus álbuns favoritos de sempre, e Neurosis uma das minhas bandas favoritas.
E como todos precisamos de ter ídolos, eles são os meus.
Ser impossível de descrever é uma qualidade, mas se os tivesse que definir diria visionários.
Hoje, quando ouço álbuns como ‘Through Silver In Blood’ a música faz, agora, todo o sentido.

E tudo o escrevi é confirmado no novo álbum ‘Given To The Rising’.

Depois de um álbum calmo e depressivo como ‘The Eye Of Every Storm’, editam um álbum incrivelmente poderoso, com uma produção obscura.
Conseguiram, como sempre, surpreender-me e criar mais uma experiência sonora (sim porque não podemos apenas ouvir Neurosis, temos que sentir e perceber).
Além da genialidade de sempre, conseguiram criar um ambiente negro em torno de todo o álbum. Um autêntico labirinto de emoções.
Quando chegou ao fim, experimentei um estranho sentimento de felicidade, não pela música ser alegre, mas por ainda haver bandas assim.
Mais uma vez afirmo: “Neurosis, obrigado por existirem!”.

Muito Bom!"

Texto publicado no Blog Cultura, Arte & Literatura
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Thursday, September 13, 2007

Estado de Espirito


Ontem sentia-me estranhamente depressivo.
Fechei a porta do meu quarto e procurei um som para servir de banda sonora ao meu estado de espírito.
Curiosamente o “Load” dos Metallica foi a escolha.
Fiquei muito intrigado. Foi uma escolha quase instantânea, praticamente sem pensar.
Sou um grande fã do som antigo dos Metallica, o que aumentou a estranheza desta escolha.
Mas a mente é mesmo assim, guarda segredos inclusive de nós próprios.
Enquanto ouvia o “Bleeding Me” surgiu-me uma questão: “E se este álbum não fosse dos Metallica? Será que ia ser tão criticado? Ou será que ir ser elogiado?”

Esta questão surgiu-me porque nunca achei o “Load” um mau álbum. Muito pelo contrário. Tem grandes canções e excelentes melodias, mas o passado brilhante desta banda ofusca essas mesmas canções.
É impossível não vibrar com malhas como “Until It Sleeps”, “Hero Of The Day”, “Bleeding Me” ou “Ain´t My Bich”. Tem uma atmosfera muito especial, obscura. O som das guitarras chega a ter um toque de Stoner.
O grande problema é que, se de seguida pegar-mos no “Master Of Puppets”, “Kill ‘em All”, “Ride The Lightning” ou “…And Justice For All” ficamos com saudades daquela genialidade e álbuns como o “Load” soam a pouco.

Mas e se não tivessem sido os grandes Metallica a editarem este álbum?
Se fosse de uma banda de nome... por exemplo… Skull Sound?

É o que tento fazer. Criar uma banda fictícia que possa ser a origem de um álbum como este “Load” e deixar a minha adoração pelos Metallica imaculada.

Fica a sugestão!

"O seu canto ecoava de uma ponta à outra
da escuridão sob uma árvore batida pelo vento
onde reluziam as asas de pequenos insectos.
O seu canto fendeu o céu em dois."
Elizabeth Bishop

Tuesday, September 11, 2007

A Arte do Grito

"Quando recebi o convite para escrever sobre a minha paixão pelo Metal, o meu primeiro instinto foi pegar numa folha de rascunho, numa caneta e escrever o texto mais elaborado possível. Afinal, para mim o Metal é mais que um estilo de música, é um estilo de vida.
Algum tempo depois deparei-me com uma mesa cheia de folhas amachucadas e percebi que não ia ser fácil transpor para o papel os sentimentos que se formam quando se fala neste estilo de musica.
Decidi então optar pela simplicidade. O meu objectivo não é convencer as pessoas a gostar, mas sim a compreender.

Quando se fala em Metal, as expressões “são só gritos” ou “ não sei como consegues ouvir isso” aparecem normalmente associadas.
Gritos... sim, são gritos. Mas gritos provenientes do coração, não da garganta. É uma forma de expressão, uma forma de arte (e como muitas outras por vezes incompreendida), mas uma forma de arte sincera.
Todos os dias ouvimos na radio vozes “lindas” de “cantores” que não conseguiam escrever uma canção se a sua vida dependesse disso. Não compõem, nem escrevem, apenas emprestam a sua voz. Isto é sinceridade?
Sinceridade é uma banda andar pelo mundo fora, a “gritar”, mas não pelo dinheiro e sim pela paixão.
Sinceridade é quando o coração bate aceleradamente enquanto esperamos que as horas passem para chegarmos a casa e ouvirmos um som novo.
Sinceridade são canções que, por minutos, nos fazem esquecer que existe um mundo lá fora, e o planeta é apenas um palco gigante condensado no nosso quarto. E depois do necessário egoísmo, partilhar com os amigos e envoltos em fumo de cigarros e refrescados por umas cervejas partilhar emoções e opiniões.
Grande parte do mistério por detrás da paixão que tenho pelo Metal provem desta sinceridade.
Resumindo, gostar de Metal é uma benção.

Mas o gostar é também um processo de aprendizagem, como uma paixão que vai crescendo com o tempo. Apenas temos que deixar a mente aberta para absorver e processar novas informações e sensações.
Ainda hoje, mais de 14 anos depois de começar a ouvir metal, necessito de ouvir um álbum várias vezes antes de formar uma opinião definitiva. O sentimento de gosto vai sendo moldado com certos pormenores que nos passaram despercebidos numa primeira audição.
Tudo conta, o ritual de pegar na caixa, observar a capa, colocar o cd na aparelhagem, dissecar cada segundo de cada musica, cada riff, cada solo, cada paragem... e sentir um arrepio na espinha e um sorriso nos lábios enquanto a musica invade os nossos ouvidos.
Gosto de chegar ao fim do dia e colocar um grande som e de gritar para me aliviar o stress. Ficar encharcado em suor depois de dar mais um concerto para um único espectador – o meu reflexo no espelho... e depois voltar á minha própria normalidade.

Afinal todos nós temos um pouco de génios e de loucos!!
"


"Tem a música o poder
de tornar o homem feliz
nem há quem saiba dizer
tanto quanto ela nos diz."
António Aleixo



Texto publicado no Blog Cultura, Arte & Literatura
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